6. GERAL 8.8.12

1. SADE  APRENDENDO A DORMIR
2. EDUCAO  QUAL DELES  MAIS GNIO?
3. POLCIA  O DISFARCE PERFEITO
4. VIDA DIGITAL  NA MO DE MOLEQUES
5. GENTE
6. CRIME  S.O.S. CRUZ VERMELHA
7. CIDADES  O PARADOXO DOS BAIRROS FANTASMAS
8. BELEZA  50 TONS DE BRANCO
9. MEMRIA  TALENTO DEMOLIDOR
10. ESPECIAL  VINGANA  A EMOO PROMORDIAL

1. SADE  APRENDENDO A DORMIR
Como a mudana de hbitos, proposta pela terapia cognitivo-comportamental, pode ajudar no combate  insnia e livrar muitas pessoas dos medicamentos
NATALIA CUMINALE

     Poucas descries sobre o suplcio das noites maldormidas so to pungentes (e precisas) quanto o poema Insnia, do poeta portugus Fernando Pessoa (1888-1935), sob o heternimo do grandiloquente lvaro de Campos:
     No durmo, jazo, cadver acordado, sentindo.
     E o meu sentimento  um pensamento vazio.
     Passam por mim, transtornadas, coisas que me sucederam
      Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
     Passam por mim, transtornadas, coisas que me no sucederam
      Todas aquelas de que me arrependo e me culpo;
     Passam por mim, transtornadas, coisas que no so nada,
     E at dessas me arrependo, me culpo, e no durmo.

     No Brasil, 76 milhes de homens e mulheres tem problemas para dormir. Deles, 22,8 milhes so insones crnicos, quando a tortura de no pregar os olhos (apesar do sono) se repete trs vezes por semana, por, no mnimo, trs meses. At recentemente a grande esperana da medicina contra as noites em claro concentrava-se, sobretudo, nos remdios. O tratamento com medicamentos tem eficincia comprovada e os inevitveis efeitos colaterais. Por essa razo, ganha espao nos consultrios mdicos o uso da terapia cognitivo-comportamental (TCC) para o controle da insnia. Boa parte das pessoas tem insnia no por ser vtima de algum desequilbrio qumico no crebro, mas simplesmente por estar condicionada a dormir errado. O objetivo da TCC , por meio de mudanas de hbitos, reprogramar o crebro para ensin-lo a adormecer. Os estudos mais recentes mostram que, a longo prazo, a terapia muitas vezes  mais eficaz do que os medicamentos, diz o neurologista Leonardo Goulart, do Hospital Israelita Albert Einstein em So Paulo. Nos Estados Unidos, desde 2005 a TCC passou a ser considerada tambm o tratamento-padro para a insnia.
     Quando foi criada, nos anos 60, pelo psiquiatra americano Aaron Beck, a TCC destinava-se ao tratamento de distrbios psquicos, em especial a ansiedade e as fobias. Para seus criadores, tais afeces, em geral, surgem da interpretao errnea do mundo concreto. Por meio de confronto e resistncia, o mtodo visa a desligar os comandos cerebrais associados aos pensamentos distorcidos. Com a terapia,  possvel reduzir as doses de remdio para dormir ou at suspender seu uso, diz a neurologista Andrea Bacelar, vice-presidente da Associao Brasileira do Sono.  o caso da carioca Regina Zany e da paulista Thelma Frazatto, cujos depoimentos esto nesta pgina. O tratamento dura, em mdia, dois meses, com encontros semanais com o terapeuta. Alm de aprender tcnicas de relaxamento e meditao, entre outras estratgias, o paciente  incentivado a anotar a sua rotina de dormir e acordar e a registrar as preocupaes que costumam rond-lo nas noites em claro  aquelas coisas transtornadas do poema de Fernando Pessoa. Diz a psicloga Katina Haddad Mussa, do Instituto do Sono, da Universidade Federal de So Paulo (Unifesp): O objetivo  mostrar ao insone que ele  capaz de dormir. Isso  importante, j que grande parte dos pacientes tem a impresso de que no sabe mais o que  dormir.
     A eficcia da TCC anti-insnia no pressupe o abandono dos medicamentos. A terapia no  indicada, por exemplo, para quem no consegue dormir em decorrncia de um quadro de apneia. Outros pacientes, por sua vez, no se adaptam ao novo mtodo. Alm disso, os remdios continuam indicados para aqueles momentos mais turbulentos, como a morte de um parente ou dificuldades financeiras, nos quais ficar sem dormir  aceitvel. Tambm nesse campo, a medicina tem boas-novas. Foi lanada recentemente no Brasil a verso sublingual do zolpidem, um dos mais seguros e eficazes indutores do sono. Fabricada pelo laboratrio EMS e vendida sob o nome comercial de Patz SL, a nova formulao permite que o remdio induza o sono em apenas nove minutos  duas vezes mais depressa que os comprimidos orais. Conclui a neurologista Dalva Poyares, da Unifesp: Medicamentos de ao mais rpida ajudam a diminuir a angstia do paciente.

TENTE DORMIR E ACORDAR SEMPRE NO MESMO HORRIO, INCLUSIVE NOS FINS DE SEMANA
Por qu
A pontualidade  importante para regular e manter o ritmo do relgio biolgico. Se, ao acordar cedo no fim de semana, voc continuar com sono, evite cochilar durante o dia e v para a cama duas horas antes do habitual.

NO USE TABLET NEM CELULAR, NO VEJA TELEVISO NEM SE ALIMENTE NA CAMA
Por qu
Ao controlar tais estmulos, o insone volta a associar o quarto ao sono. A cama deve ser usada nica e exclusivamente para dormir  e para o sexo. Dormir com a televiso ligada leva a microdespertares que tornam o sono mais superficial e menos reparador.

EVITE TIRAR SONECAS DURANTE O DIA
Por qu
Os cochilos desregulam o relgio biolgico, desequilibrando o ciclo de sono e de vigia. Quando se dorme durante o dia,  muito mais difcil repousar  noite.

TENHA UM QUARTO ACONCHEGANTE
Por qu
Um ambiente silencioso, na temperatura adequada e escuro favorece a liberao pelo organismo da melatonina, o hormnio do sono. Secretada na ausncia de luz, ela faz com que o crebro funcione em ritmo mais lento.

NO PRATIQUE ATIVIDADES FSICAS PERTO DA HORA DE DORMIR 
Por qu
A liberao de adrenalina ocorrida com o exerccio fsico  um estimulante cerebral, o que dificulta o incio do repouso. Por isso, voc s deve fazer exerccios quatro horas antes de se deitar. A prtica regular de atividade fsica durante o dia, no entanto,  essencial para manter em alta os nveis do hormnio endorfina, associado  sensao de bem-estar.

NO FIQUE ROLANDO NA CAMA  ESPERA DO SONO
Por qu
Se, trinta minutos depois de se deitar, voc ainda no dormiu, levante-se e saia do quarto. Ficar desesperadamente tentando dormir  um timo despertador, costumam definir os mdicos.

NO CONSUMA BEBIDAS ALCOLICAS OU  BASE DE CAFENA ANTES DE IR PARA A CAMA
Por qu
Voc s deve consumi-las at seis horas antes de se deitar. O lcool at pode ser um bom indutor do sono, mas o descanso proporcionado por ele  superficial, de m qualidade.

LIES PARA VOLTAR A DORMIR - Costumava acordar mais de duas vezes durante a noite e tinha dificuldade para voltar a dormir, o que comprometia o dia seguinte. Por isso, recorri aos remdios. No acreditei que a TCC pudesse funcionar. Engolir um comprimido antes de me deitar era bem mais simples do que mudar os hbitos, mas resolvi experimentar e hoje durmo sem o remdio e, se acordo durante a noite, aprendi a pegar no sono novamente
THELMA FRAZATTO, 40 anos

SONO MAIS TRANQUILO -  terrvel ter sono e no conseguir dormir. Rolava na
cama por cinco horas at dar um cochilo. Um cochilo apenas. Era uma tortura. A cabea no parava. Problemas pequenos ficavam enormes. Cheguei a tomar uma quantidade elevada de benzodiazepnicos. A terapia me ensinou a controlar a ansiedade e hoje s preciso de doses baixas de antidepressivo para pegar no sono.
REGINA ZANY, 47 anos


2. EDUCAO  QUAL DELES  MAIS GNIO?
Na Olimpada de Matemtica, o ouro vai para quem soluciona melhor os desafios mais complexos. Os orientais dominam o pdio, e vale a pena saber as razes disso.
GABRIELE JIMENEZ, DE MAR DEL PLATA

     Ao ouvir o anncio entusiasmado de seu nome, o jovem de palet vermelho e calas curtas se ergue e caminha rumo aos holofotes. Do alto do palco, lana um olhar tmido para a plateia, onde centenas de admiradores se amontoam para aplaudi-lo de p, enquanto ele recebe a merecida medalha de ouro. No foi nenhuma modalidade dos Jogos de Londres que cravou o nome de Jeck Lim, de Singapura, no panteo dos melhores do mundo, mas a matemtica,  qual ele se dedica desde pequeno como verdadeiro atleta. Aos 17 anos, Jeck conheceu a glria na recm-encerrada Olimpada Internacional de Matemtica (IMO), a mais prestigiada e concorrida competio do gnero desde 1959. Nesta edio, 548 alunos dos ensinos fundamental e mdio de 100 pases disputaram medalhas em Mar del Plata, na Argentina. A equipe da Coreia do Sul teve a maior pontuao e venceu o duelo, seguida pela da China, mas foi o garoto de Singapura que se tornou heri, por um feito raro:  dele a nica prova perfeita, aquela que atingiu os 42 pontos em jogo. Todos ali ambicionam ser um ouro 42, apelido que passa a ser confundido com o prprio nome dessas precoces estrelas da matemtica, Dos seis brasileiros no preo, cinco levaram medalhas  uma de ouro, uma de prata e trs de bronze , dando ao pas a 19 colocao no ranking. Podemos ir mais longe. Vou fazer de tudo para voltar em 2013, diz Rodrigo Sanches, 16 anos, com sua reluzente medalha de ouro, uma das 51 distribudas.
     Para estarem no olimpo mundial, os brasileiros passaram por uma dura peneira que envolveu sete provas e a resoluo de complicadas listas de exerccios ao longo de um ano. Tudo vale nota. O marco zero da seleo para a IMO  a Olimpada Brasileira de Matemtica, que em 2011 reuniu 200.000 alunos e premiou 100. Estes foram sendo imersos na cultura, digamos, olmpica. Logo de cara, ficaram uma semana concentrados num hotel ouvindo os grandes nomes da matemtica no pas e tendo aulas e aulas, que emendaram com uma disciplinada rotina de estudos em casa. Por exausto ou falta de nimo, cerca de metade abandonou o preo antes mesmo da escolha do grupo que viria a representar o pas na arena mundial. Os cinquenta que perseveraram compem um universo com hbitos e jargo prprios  gostam de buscar solues na caixinha (curtas e perfeitas) para fechar a prova (acertar tudo). Vivem conectados em rede para trocar ideias sobre os desafios que os consomem e se esbarram o tempo todo no eletrizante circuito internacional da matemtica  as Olimpadas do Cone Sul, a Iberoamericana e o Romanian Master esto na rota brasileira. Fazer parte disso  como um estilo de vida para mim, resume a veterana mineira Maria Clara Mendes, 18 anos, desde os 11 na briga por medalhas.
     As trs semanas que antecedem a Olimpada so sempre de treinamento pesado em So Paulo, onde competidores de toda parte do pas passam por uma espcie de ensaio do que est por vir. Fazem vrios simulados da prova da IMO, que no varia na forma (so seis problemas para ser resolvidos em nove horas no curso de dois dias), mas no grau de dificuldade de um ano para o outro: a de 2007 foi impossvel; j a de 2012, tirando um problema que queimou os neurnios dos jovens geniozinhos, razovel, Entraram anlise combinatria, teoria dos nmeros, lgebra e geometria. Na olimpada de 2003, a disputa deu-se no Japo, e, para se aclimatarem ao fuso, ainda no Brasil, os estudantes varavam a madrugada sobre os exerccios. A obstinao na reta final  tanta que eles s costumam deixar o circuito hotel-sala de aula para arejar a mente no cinema, muitas vezes com o professor ao lado. Depois voltam  labuta. So meninos determinados, que a toda hora o desafiam e surpreendem.  um convvio estimulante, diz o professor e treinador olmpico Carlos Shine, 32 anos, que j fez trabalho parecido com a equipe americana, a terceira colocada na ltima IMO.
     Os atletas brasileiros da matemtica no so apenas um exemplo de talento fora de srie potencializado ao grau mximo.  verdade que todos j eram bons alunos, mas alguns s foram achar mesmo o caminho da excelncia aps muitas noites sobre as equaes. As vezes, o pendor para os nmeros veio da influncia dos pais; ou foi um professor que os fez enveredar por a, pavimentando-lhes o caminho com uma base slida. Eles no apenas estudam muito, com verdadeira devoo aos nmeros, como o fazem sem se curvar s dificuldades. Ao contrrio, so absolutamente movidos pela competio que travam consigo mesmos. A satisfao de resolver um problema complicado  como a de bater um recorde no esporte. Trata-se de superao de limites, compara o cearense Joo Lucas S, 18 anos, medalha de prata na IMO, que acaba de ganhar uma bolsa para estudar no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos. Um dos mandamentos de sua turma  nunca, sob nenhuma hiptese, abandonar um problema no meio. As vezes, ensinam,  s o caso de deixar o crebro descansar por um tempo (veja as dicas dos campees na pgina 93).
     O Brasil vem gradativamente avanando no ranking da competio, na qual estreou em 1979. Em 2010, ficou em 35 lugar, em 2011 subiu para 20 e agora acabou em 19.  o reflexo de um investimento macio e contnuo na lapidao desses talentos olmpicos  encabeado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientfico e Tecnolgico (CNPq) e pelo Instituto de Matemtica Pura e Aplicada (Impa). Diz o doutor em matemtica Jacob Palis, do Impa: As olimpadas tm funcionado como um potente motivador para que milhares de jovens estudem e gostem de verdade da matemtica. O que breca a escalada brasileira  o baixo nvel do ensino nas escolas do pas, ainda lado a lado com os piores do mundo.  justamente a que reside a larga vantagem dos asiticos, h dcadas no topo. Os chineses so os grandes campees na histria da IMO, acumulando dezessete vitrias nas 27 vezes em que compareceram e 124 medalhas de ouro (contra as nove brasileiras). Depois de quatro anos consecutivos no alto do pdio, nesta edio eles viram o primeiro lugar passar s mos dos sulcoreanos, seus habituais rivais. Na China, o treino olmpico comea cedo e  durssimo. Os que se destacam na escola tm at o dobro de aulas de matemtica, conta Hao Wu, 18 anos, ouro em Mar del Plata. Chegar  olimpada internacional exige de um chins ou de um coreano performance impecvel. Tnhamos doze excelentes competidores. Cortamos seis no detalhe, explica Yongjin Song, h quinze anos treinador da seleo sul-coreana.
     Poucos rudos se ouviam nos corredores do hotel Gran Provincial, no centro de Mar del Plata, na vspera das provas. As equipes estavam concentradas em seus quartos, algumas ainda debruadas sobre um ltimo problema. Os competidores quase no se falaram nos dias decisivos. Eram rivais. A rea de lazer, montada para a ocasio, ficou s moscas. At que a maratona de provas se encerrou, e mesmo os mais circunspectos se renderam  diverso  da montagem de um quebra-cabea de 24.000 peas aos videogames. Dos seis brasileiros, quatro tm idade para disputar a prxima olimpada, na Colmbia. Mal desembarcaram e j esto s voltas com aquilo de que mais gostam: resolver problemas impossveis.

E, PARA O RESTO DE NS, AS BICAS DOS CAMPEES
ANTECIPE-SE - Leia a matria nova antes da aula. Quando o professor a ensinar, no ser totalmente novidade
MO NA MASSA - Pratique, pratique e pratique.
D UM TEMPO AO PROBLEMA - Se a soluo estiver difcil, deixe a questo de lado e volte a ela mais tarde. Nunca desista.
CONECTE-SE - Os fruns de matemtica na internet so amigveis com estudantes de todos os nveis.
VRIOS CAMINHOS LEVAM AO MESMO LUGAR - Resolveu o problema? Tente outra soluo.  um poderoso exerccio para o crebro.
UM DEGRAU DEPOIS DO OUTRO - V devagar. Grandes saltos costumam ser improdutivos.

O DICIONRIO DOS GENIOZINHOS
Cara -  como carinhosamente eles se referem a nmeros ou figuras geomtricas.
Cartear - Chegar  resposta certa por meio de um caminho inesperado.
Fechar a prova - Acertar tudo
Olmpico - Quem vai ou j foi a uma Olimpada de Matemtica.
Ouro 42 -  o campeo dos campees. Aquele que consegue acertar os seis problemas da prova, que valem 7 pontos cada um (em 2012, s Jeck Lim, de Singapura, alcanou a marca).
Prova bonita - Benfeita, desafiante. Exemplo: a da Olimpada de 2007, pela altssima complexidade.
Soluo na caixinha - Curta e perfeita

FALTOU UM - O americano Thomas Swayze, 17 anos, voltou da Argentina com a sensao de que poderia ter feito mais. Dos seis desafios da prova, acertou s cinco. Mesmo assim, levou para casa uma medalha de ouro e a 11 colocao entre mais de 500 competidores. Thomas diz que o que o move no  ganhar dos outros, mas do prprio problema. Seu programa de domingo em San Diego, na Califrnia,  reunir-se com amigos. Para bater papo? Para surfar? No  para estudar.

IMPECVEL - Veterano nas grandes competies de matemtica, Jeck Lim, de Singapura, marcou um tento aos 17 anos: foi o nico a fazer a prova perfeita, conquistando o cobiado ouro 42. Visivelmente desconcertado diante da sbita fama, Jeck, que se diverte desafiando os outros com questes de lgica, disse a VEJA: Adoro chegar  soluo de um problema.

OS CAMPEES - A equipe da Coreia do Sul desbancou a da China, vencedora das quatro ltimas olimpadas. O professor Yongjin Song credita o sucesso ao acirrado esprito de competitividade dos alunos e ao talento excepcional do mais jovem deles: Dong Ryul Kim, 15 anos ( esq., sentado), segundo lugar no quadro geral.


3. POLCIA  O DISFARCE PERFEITO
Com a fachada de policial exemplar, um dos grandes traficantes de armas do Rio extorquiu, roubou e matou impunemente. Agora, comea a responder por seus crimes.
LESLIE LEITO

     Um homem se infiltra na polcia, usa as grias da corporao, anda de pistola na cintura, carrega algemas e distintivo e circula em viatura com placa oficial. Aproveita o disfarce para extorquir, roubar e at matar. Descoberto,  julgado e condenado, cumpre pena e, assim que sai da cadeia, retoma a farsa em outro ponto da cidade. Casa-se com urna moa rica, engambelada pela fachada de homem srio. Parece enredo de filme, mas  o roteiro da vida dupla de um dos maiores traficantes de armas do Rio de Janeiro. Flavio Teixeira Marinho, 40 anos, que vinha se fazendo passar pelo que no era ao longo dos ltimos quinze anos, sem ser incomodado. No fim de junho, ele foi desmascarado pela segunda  e, espera-se, ltima  vez ao ser flagrado vendendo armas e munies nas imediaes de uma favela no subrbio de Madureira.
     A carreira, por assim dizer, de Marinho comeou no bairro de Benfica, Zona Norte do Rio, onde foi criado. No fim dos anos 1990, ali ele se casou com a viva de um policial civil, o primeiro de seus trs matrimnios. Ainda sem muita expertise, Marinho colou sua foto na carteira funcional do policial morto, equipou um carro roubado com placas brancas como as usadas pela corporao e, junto com um amigo, montou um esquema de extorso de traficantes numa regio a 30 quilmetros de distncia de onde vivia. Um dos bandidos, segundo as investigaes, chegou a pagar 60.000 reais para no ser preso pela dupla. O negcio florescia at que, em 1999, Marinho foi pego, supostamente por puro acaso, numa batida policial portando a identidade falsa. Ele cumpriu quatro anos de priso por falsidade ideolgica e porte ilegal de arma. Depois disso, foi ainda indiciado por assalto a mo armada, estelionato e um assassinato. Com bons advogados, livrou-se de todas as acusaes, menos da mais grave, um homicdio que cometera cinco dias antes de ser capturado.
     Marinho saiu da cadeia com o firme propsito de sofisticar seu esquema, e conseguiu. Em meados de 2009, provavelmente com a ajuda de amigos dos velhos tempos, teve acesso  ficha de um policial na ativa com nome e idade iguais aos seus. De novo, transfigurou-se, desta vez na Ilha do Governador, tambm na Zona Norte, onde passou a morar e a atuar com uma rplica perfeita da identidade funcional do inspetor Flavio Savietto Santos, lotado na Delegacia de Proteo  Criana e ao Adolescente. Savietto, que tem dez anos de profisso e ficha limpa, viveu os ltimos trs sem ter ideia de que algum se passava por ele em outra parte da cidade. Dei entrada na corregedoria para que essa falsificao seja investigada fundo. Esse bandido teve acesso aos meus dados, certamente com a ajuda de algum de dentro da Polcia Civil, disse a VEJA.
     Por onde andou, Marinho cultivou uma imagem de duro que o ajudou a manter o disfarce. Todo mundo acreditava que ele era policial. S descobrimos a verdade quando foi preso pela primeira vez, lembra o dono de um comercio na regio de Benfica, palco dos primeiros golpes. A histria se repetiria na Ilha do Governador, onde era visto com respeito e certo temor pelos vizinhos. Ali ele conheceu Letcia, 20 anos, ento grvida de um amigo seu. Apaixonaram-se, e Marinho  para Letcia, inspetor Savietto  se disps inclusive a assumir o filho dela. Ele chegou a tirar segunda via da certido de nascimento do verdadeiro Flavio Savietto para registrar a criana, mas a Letcia acabou no deixando, conta um amigo da famlia. O casal foi morar numa manso avaliada em mais de 1 milho de reais, no Jardim Guanabara, a regio mais nobre da Ilha. O falso policial comeou ento a vestir roupas importadas, frequentar boates da moda e dirigir carres como o Land Rover Freelander avaliado em 80.000 reais que conduzia na noite em que foi preso.
     O flagrante foi resultado de uma investigao sobre o fornecimento de ar- mas ao trfico, justamente um dos negcios mais lucrativos de Marinho. Dizendo  mulher que realizava sindicncia em uma empresa de seguros do Paran, ele fez diversas viagens a Foz do Iguau; de l, atravessava a fronteira para comprar armas no Paraguai e abastecer favelas cariocas. Marinho foi preso dentro de seu carro, no momento em que negociava 23 carregadores de pistola Glock. Com a priso dele. cortamos um importante canal de abastecimento blico na cidade, diz o delegado Rui Barboza. Preso em Bangu 2, Marinho se sentar no banco dos rus da 4 Vara de So Gonalo nas prximas semanas. Vai enfim responder pelo homicdio de 1999  o primeiro item de uma longa lista a acertar com a Justia.


4. VIDA DIGITAL  NA MO DE MOLEQUES
Revelaes de funcionrios que viveram os primeiros tempos do Google e do Facebook retratam o mundo digital como um reino de garotos.
FILIPE VILICIC

     O mundo digital  comandado por meninos arrogantes, machistas e mimados, ainda que geniais. Esse  o cenrio que emerge de dois livros escritos por pessoas que viveram nos bastidores das mais icnicas empresas da web, o Google e o Facebook. Douglas Edwards, autor de Estou com Sorte, publicado pela editora Novo Conceito, foi o primeiro diretor de marketing e o empregado nmero 59 do site de buscas criado por Larry Page e Sergey Brin, engenheiros ento com 25 anos, recm-sados da universidade. Entre 1999 e 2005, Edwards ajudou a transformar o que poderia ter sido uma reles lista telefnica num sistema de busca sem o qual a internet perderia metade de sua utilidade. Em The Boy Kings (os reis meninos, em ingls, ainda sem edio brasileira), Katherine Losse traa um retrato cido de Mark Zuckerberg, que fundou o Facebook aos 19 anos. Como gerente de internacionalizao do Facebook, ela cuidou da expanso do site para alm dos pases de lngua inglesa.
     Os autores trabalharam em setores encarregados de moldar a imagem pblica das empresas, e ambos tinham acesso direto aos donos-meninos. Katherine escrevia as mensagens do perfil do patro no Facebook. Os dois tambm compartilharam o encanto e a decepo de trabalhar no Vale do Silcio. A expresso abrange uma regio de 28 cidades na Califrnia na qual esto instalados os pesos pesados da indstria digital. Katherine era recm-formada ao entrar para o Facebook, em 2005. A empresa fora criada no ano anterior, e Zuckerberg tinha apenas 20 anos. Edwards, que atuava em um tradicional jornal do vale, aceitou um salrio menor pela oportunidade de trabalhar no Google e conhecer de perto o reino de moleques.  um universo excitante, em que se formam estrelas do mundo empresarial e produtos de ponta. Sentia que participava de uma revoluo, disse Edwards a VEJA, numa conversa em seu restaurante favorito em So Francisco, de comida russa. Ele tinha 40 anos quando entrou para a empresa e se viu como um peixe fora dgua numa turma de rapazes com 20 e poucos anos.
O Vale do Silcio  dominado por gente abaixo dos 30 anos. As ruas arborizadas esto repletas de jovens de bermudo e chinelos. As empresas tm paredes grafitadas, mesas de sinuca e videogames e uma gama variada de brinquedos de meninos. Katherine foi a segunda mulher a entrar para o Facebook, e o ambiente no era nada amigvel para uma mulher. Ou voc se adapta  dura cultura de rapazes ou  obrigada a sair, ela diz no livro. As paredes dos escritrios do Facebook eram decoradas com desenhos de mulheres de busto avantajado.  o que ela descreve como um cenrio que meninos ricos adoram. Certa vez, Katherine reclamou a Zuckerberg por ter sido abordada de forma grosseira por um engenheiro (Quero cravar meus dentes na tua bunda, foi o que ele disse). O dono do Facebook deu de ombros. Na opinio dele, as mulheres precisam aceitar que so vulnerveis e aprender a conviver, da melhor forma que puderem, com a agressividade masculina.
     O primeiro choque para Edwards foi na entrevista de emprego: Sergey vestia uniforme de hquei e estava suado. Ele logo descobriria que uma maneira de ganhar a confiana dos donos do Google era venc-los no hquei. Uma mentalidade de adolescentes, na sua interpretao. O encantamento com o Google durou pouco: O ambiente com fliperamas  um artifcio para prender o funcionrio no escritrio, sem reclamaes. Era comum trabalhar em fins de semana, quando ele levava seus trs filhos para a empresa  prtica usual no vale. Edwards saiu milionrio, com um bom pacote de aes do Google. Katherine pediu demisso em 2010 por discordar das polticas da companhia. Para ela, o Facebook passou a ter uma viso totalitria e a desrespeitar a privacidade de usurios. Zuckerberg chegou a cogitar um dark profile: todas as pessoas citadas na web ganhariam perfil no site, quisessem ou no. S no foi adiante porque seria ilegal. O mundo digital  marcado pelo clube do Bolinha. Steve Jobs criou a Apple aos 21 anos e Bill Gates a Microsoft aos 19. Uma diferena  que esses pioneiros estiveram submetidos  superviso de adultos. Nos anos 80, Jobs chegou a ser afastado por John Sculley, o CEO dezesseis anos mais velho. Na ltima dcada, de modo geral, a molecada ficou  solta no comando. A mentalidade juvenil pode ser traduzida pela frase que j estampou cartes de visita de Zuckerberg: lm CEO, bitch. Algo grosseiro como eu sou o chefe, vadia. A parte boa nesse cenrio  que a inexperincia  o nico defeito que no piora com a idade. 


5. GENTE
JULIANA TAVARES. Com Dolores Orosco, Mariana Amaro e Marlia Leoni.

SEM FURINHOS
No ter papas na lngua, nem em outros componentes corporais,  uma das caractersticas mais marcantes da cantora PRETA GIL. Sua sesso de fotos para uma marca de lingerie, em companhia da modelo BARBARA FIALHO, s poderia ser hilariante. Pediam para a gente correr e, por causa do salto, eu caa e me segurava na Barbara. Ligavam o ventilador para nosso cabelo voar e o meu ia todo na cara dela, descreve Preta. A cantora (84 quilos) e a modelo (60) se juntaram tambm para pedir um deletador digital em certos furinhos. As duas juram que usam modeladores. Eu gosto com shortinho, igual ao da Beyonce, diz, com mais credibilidade, Preta.

PRONTO, FALOU
J dava para desconfiar, mas foi preciso ZEZ DI CAMARGO explicitar numa entrevista: Para todo mundo no perguntar a mesma coisa, estou solteiro. Contra algumas expectativas, o casamento com Zil Camargo sobreviveu durante trs dcadas s presses da fama e do sucesso, com suas notrias consequncias. H um ano, Zil foi morar em Miami, onde se dedica de forma discreta, mas abertamente, a outros interesses. O leque de interesses de Zez continua diversificado. Uma de suas novas msicas  a nada sutil Eu T na Pista, Eu T Solteiro. Zil volta ao Brasil brevemente para tratar da separao.

PAZ TEM NOVA BATALHA
Quando soube que MARCELO CHOCOLATE, seu par no quadro Dana dos Famosos, tinha sido operado s pressas, por causa de uma apendicite, BARBARA PAZ caiu em prantos. Ela foi ao hospital me visitar e chorava tanto que tive eu de consol-la, conta o danarino. Desfalcada em matria de entrosamento, a obstinada Barbara passou a fazer par com Maurcio Wetzel, um amigo de Chocolate. Entrei nesse quadro estimulada pela Regina Duarte, que falou que o sucesso dele era similar ao de novela das 9. Agora, eu s penso nisso. Treino duas horas por dia e, quando chego em casa, ainda assisto a vdeos de dana, diz Barbara.

SORRIA, SOFIA!
Prestgio, admirao e at o respeito emburrado de antimonarquistas  tudo isso desabou em questo de meses para o rei JUAN CARLOS da Espanha, 74 anos. A queda da semana passada simbolizou a sucesso de erros do rei desde os seguintes fatos: estava num safri com a sua companhia feminina mais constante; gostava de matar elefantes e tirar fotos; detonou a fachada do casamento com a sbria rainha Sofia; dois supostos filhos no contabilizados pedem reconhecimento de paternidade na Justia. O infausto safri veio  luz porque l o rei sofreu fratura de cabea de fmur. Ficou um tempo andando de bengala, mas logo quis retomar o passo.

ELA NO QUERIA REPOUSO?
Um ano e meio atrs, a apresentadora MRCIA GOLDSCHMIDT decidiu que queria sossego. Largou a TV, fechou sua casa em So Paulo e mudou-se para a cidade do Porto, em Portugal. Sem querer, a paz lusitana virou turbilho: ela se encantou
por um gajo local, casou-se e, aos 50 anos, espera gmeas.  quase um milagre!, diz Mrcia, que engravidou depois de fazer um tratamento de fertilizao. Aos cinco meses de gestao, ela finalmente parou, por necessidade mdica: Passo os dias na internet e achei receitas incrveis, como a de suco de batata crua e a de caldinho de p de galinha, que tomo todo dia.


6. CRIME  S.O.S. CRUZ VERMELHA
No mundo inteiro h mais de um sculo, a Cruz Vermelha ajuda as vtimas de catstrofes e guerras civis, mas no Brasil, minada por suspeitas de corrupo e desvio de dinheiro na cpula,  ela que pede socorro.
LESLIE LEITO

     Toda vez que uma catstrofe abala o planeta  seja a Sria conflagrada, seja o Japo devastado por um tsunami, seja a regio serrana do Rio de Janeiro arrasada por chuvas e deslizamentos , a Cruz Vermelha se faz presente, prestando servios sustentados por doaes vindas de todo o mundo. Com eficincia e credibilidade, a organizao fundada em 1863 pelo suo Jean Henri Dunant (ganhador da primeira edio do Prmio Nobel da Paz, em 1901) e sediada em Genebra, na Sua, estabeleceu na prtica os direitos e deveres humanos depois consolidados na Conveno de Genebra, firmou slida reputao de neutralidade e, assentada em firme alicerce de respeitabilidade, tornou-se uma mquina eficiente de arrecadao de doaes e recrutamento de voluntrios  inclusive no Brasil, onde completa 100 anos de atividade justamente em 2012. Um aniversrio, infelizmente, tisnado por um triste revs. O Ministrio Pblico comea a revirar um lamaal que aponta para o desvio de um montante de dinheiro de doaes  Cruz Vermelha. O valor, ainda no totalmente conhecido, conta-se na casa dos milhes. Nas ltimas quatro semanas, VEJA entrevistou conselheiros, funcionrios, colaboradores e doadores da Cruz Vermelha, analisou mais de 1000 documentos, e a concluso do trabalho  que os recursos doados  entidade no Brasil no foram aplicados como pensam os incautos benemritos.
     No ano passado, a Cruz Vermelha Brasileira organizou trs grandes campanhas nacionais de arrecadao  uma para as vtimas dos deslizamentos na regio serrana fluminense, que deixaram 35.000 desabrigados; outra para a Somlia, pas africano faminto e devastado por guerras civis; e mais uma para a tragdia do terremoto seguido de tsunami no norte do Japo. Os recursos arrecadados nessas campanhas, com toda a certeza, no foram aplicados em nenhum daqueles locais. Nem um nico centavo chegou a quem precisava. Nos trs casos, as doaes foram encaminhadas para contas bancrias da entidade no Banco do Brasil em So Lus, no Maranho. Por que no Maranho? No se sabe, mas se suspeita: 1) porque o presidente nacional da Cruz Vermelha, Walmir Moreira Serra Jnior, mora l; e 2) porque justamente sua irm, Carmen Serra,  quem comanda a filial da Cruz Vermelha maranhense. Sob os argumentos mais diversos, os irmos Serra passaram a manter as contas sob sigilo, e nem o alto escalo da entidade tem informaes sobre o montante depositado ou sobre as movimentaes.
     Apesar de insistentes solicitaes, a mais recente em uma reunio em Braslia em 11 de junho, a comisso fiscal da organizao no Brasil, secundada por instncias superiores, como a Federao Internacional da Cruz Vermelha, tentou em vo ver o extrato das contas. As coisas no esto sendo feitas de forma transparente. Estamos exigindo uma informao, mas ela nunca vem, diz o representante da Federao da Cruz Vermelha para a Amrica do Sul, Gustavo Ramirez, que reuniu e enviou para o Japo o dinheiro arrecadado nos outros pases  menos o do Brasil. Sobre a campanha para ajudar os famintos da Somlia tambm paira um ponto de interrogao. Fizemos parceria com a Cruz Vermelha do Brasil, mas no sei onde foi parar a parte que eles arrecadaram, fala com perplexidade o suo Felipe Donoso, delegado para Argentina, Brasil, Chile, Uruguai e Paraguai do Comit Internacional da Cruz Vermelha (CICV),
     A investigao das contas misteriosas, que vinha ocorrendo em sindicncias internas, extrapolou o mbito da organizao em fevereiro, quando Letcia Del Ciampo assumiu o comando do escritrio da Cruz Vermelha em Petrpolis, uma das cidades do Rio de Janeiro devastadas pelas chuvas do ano passado. Letcia constatou as irregularidades, reuniu documentos e entrou com duas aes no Ministrio Pblico estadual  uma contra a Cruz Vermelha da cidade serrana, outra contra a nacional. Alm de constatar que Petrpolis no recebeu um tosto do dinheiro que foi parar nas contas secretas do Maranho, ela descobriu desvios em outras reas. Ambulncias novas que deveriam estar servindo a regio nunca apareceram, e as antigas esto sem manuteno h muito tempo, o que praticamente inutilizou a frota. H sinais de problemas tambm em um convnio feito com o governo do Distrito Federal com o objetivo de passar  Cruz Vermelha a gesto de uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) em Braslia. Em 2010, a Cruz Vermelha-Petrpolis recebeu 3,7 milhes de reais adiantados, mas ela nunca prestou servio algum e est sendo cobrada na Justia pela devoluo do dinheiro. A Cruz Vermelha brasileira est cometendo crimes contra a humanidade. Desde que assumi o cargo, o que mais ouvi foram pessoas dizendo que catstrofes so tima oportunidade para ganhar dinheiro, dispara Letcia.
     Outro foco de irregularidade envolve o escritrio do Rio Grande do Sul, contratado para gerenciar um hospital municipal em Balnerio Cambori, Santa Catarina. Uma CPI apurou desvios de dinheiro ali e indiciou dezesseis pessoas no ms passado, entre elas o presidente Moreira Serra e seu vice, Anderson Choucino. Cerca de 1,5 milho de reais pagos  Cruz Vermelha pela prefeitura foram parar nas gulosas contas secretas do Maranho. Est cercado de suspeitas tambm o aluguel de parte do terreno onde fica o edifcio-sede da organizao. no Rio de Janeiro. A intermediao da locao foi entregue  Finance Consultoria, empresa que ocupa uma sala minscula em um prdio de Olinda, Pernambuco. A Finance cobrou 83 milhes de reais pelos servios prestados. As cifras, suspeitssimas, so contestadas por conselheiros da Cruz Vermelha.
     O processo de arrecadao das trs campanhas de 2011 j seria em si motivo para envergonhar os responsveis pela imagem de uma instituio patrimnio da humanidade como a Cruz Vermelha. A Embaixada da frica do Sul destinou 230.000 reais aos desabrigados da serra fluminense e nunca recebeu um relatrio sequer sobre a utilizao do dinheiro. VEJA teve acesso a uma lista de empresas e bancos que juntos doaram cerca de 1,5 milho de reais para os desabrigados fluminenses. No vimos a cor do dinheiro, diz Rosely Sampaio, diretora executiva da Cruz Vermelha carioca. A Cruz Vermelha do Japo registra o recebimento de 164.000 reais para as vtimas do tsunami, mas os recursos eram provenientes apenas da Cruz Vermelha de So Paulo. O dinheiro arrecadado pelo escritrio nacional foi parar nas contas secretas do Maranho. A suspeita que o dinheiro que deveria ajudar a Somlia tenha tido o mesmo destino  as contas controladas pelos irmos Serra. Quando a comisso fiscal da entidade deu um prazo final para que o sumio do dinheiro fosse explicado, Moreira Serra, presidente nacional da entidade, simplesmente extinguiu o rgo fiscalizador. Serra recusou-se a falar com VEJA. Enquanto no mundo todo a Cruz Vermelha ajuda os desvalidos, no Brasil  ela que pede socorro. 

CRUZ VERMELHA, UMA POTNCIA
Fundao 1863
Pases em que atua 187
Voluntrios 100 milhes
Arrecadao 3,6 bilhes de dlares em 2010
Prmio Nobel da Paz 3

UMA IMAGEM A PRESERVAR
Em seus 149 anos de existncia, a Cruz Vermelha recebeu trs prmios Nobel da Paz.

1914-18
+ Na I Guerra Mundial, organizou a remoo e o cuidado de feridos na frente de batalha, sistematizando o tratamento aos prisioneiros. Em 1917, ganhou o Prmio Nobel da Paz

1939-45
+ Na II Guerra Mundial, mais uma vez, teve papel fundamental. Em 1944, recebeu, de novo, o Nobel da Paz

1953
+ Na Guerra da Coreia, intermediou a delicada troca de prisioneiros

1963
+ Em seu centenrio, ganhou o Prmio Nobel da Paz pela terceira vez

1997
+ A princesa Diana, a convite da Cruz Vermelha britnica, engajou-se na campanha contra minas terrestres e visitou Angola

2010
+ Trs horas depois do terremoto que devastou o Haiti, comeava a receber doaes, e ainda ajuda na reconstruo do pas

2012
+ nica entidade de socorro em operao na Sria, declarou estado de guerra civil no pas em 15 de julho


7. CIDADES  O PARADOXO DOS BAIRROS FANTASMAS
Na China existem 64 milhes de residncias vazias, alm de centenas de prdios comerciais sem uso. A bolha s no estoura porque no h pressa para vender os imveis.
TATIANA GIANINI

     As fotos panormicas das metrpoles da China, com seus novssimos arranha-cus envidraados, so um smbolo da pujana econmica do pas. No  s uma imagem. A construo de imveis de fato tem peso no crescimento chinas, respondendo por nada desprezveis 12% do PIB nacional e por uma parcela expressiva da demanda internacional por matrias-primas como ao e cobre. O cenrio  menos esplendoroso do lado de dentro dos imveis. Muitas casas, torres de escritrios e lojas esto vazias. Em algumas cidades, h distritos comerciais e residenciais inteiros que nunca chegaram a ser ocupados. O mais desolador bairro fantasma fica em Ordos, na Monglia Interior, ao norte do pas. Cerca de 1 bilho de dlares foram investidos na construo dos condomnios residenciais e dos espiges que compem o horizonte do distrito de Kangbashi. O plano dos empresrios e da prefeitura era usar os lucros da indstria de carvo local, uma das maiores do pas, para transformar a cidade em uma verso chinesa de Dubai, nos Emirados rabes Unidos. S faltam as pessoas  um paradoxo num pas com 1,3 bilho de habitantes. O bairro foi projetado para abrigar 300.000 moradores, mas apenas 30.000 vivem l. Outra cidade, Dongguan, sedia o shopping New South China Mall, que deveria ser o maior centro de compras do mundo, com capacidade para receber 70.000 visitantes dirios. Sete anos aps sua inaugurao, 99% das lojas seguem desocupadas.
     Boa parte dos imveis vazios da China pertence a investidores privados da classe mdia em ascenso. Eles preferem colocar suas poupanas no mercado imobilirio, pois o rendimento das aplicaes nos bancos  baixo e apostar em aes  arriscado demais para o perfil conservador das famlias chinesas. Nos ltimos anos, comprar casas, apartamentos e escritrios foi a opo mais promissora, entre outros motivos porque os impostos sobre a propriedade eram baixos e porque, como medida de estmulo econmico, houve um aumento na oferta de crdito aps a crise mundial de 2008. Com isso, estima-se que 30 milhes de chineses tenham hoje mais de um imvel.
     Enquanto havia procura e os preos disparavam, ningum estranhava o surgimento de mais arranha-cus, condomnios e shoppings. O problema  que, seduzidas pela ideia de uma demanda imobiliria chinesa infinita, as construtoras ergueram mais propriedades do que so capazes de vender a preos altos. Os dados oficiais mostram que 3 bilhes de metros quadrados de imveis residenciais estavam em construo em fevereiro passado na China, o suficiente para suprir a demanda por quase trs anos sem que uma nica nova casa seja erguida. At as obras de infraestrutura foram exageradas. Na ponte martima que liga a cidade de Qingdao  Ilha de Huangdao e que  a maior do mundo, com 42 quilmetros de extenso, o fluxo de veculos  apenas um tero do esperado. No ms passado, o governo anunciou a construo de 82 aeroportos at 2015. Embora Pequim diga que as obras so necessrias para atender aos investimentos feitos por inmeras empresas no interior do pas, h o temor de que se tornem elefantes brancos, j que, no ano passado, 130 aeroportos tiveram prejuzos.
     At agora, os investidores em imveis tm se recusado a vend-los por valor menor do que o que pagaram e tambm no querem alug-los, o que explica por que a fartura de casas no servir para reduzir o dficit habitacional de 75 milhes de residncias. Ningum quer ter prejuzo, nem as construtoras, nem os investidores, muito menos o governo, que teria de admitir a existncia de uma bolha e de uma correo dos preos que levaria a uma diminuio dos investimentos no setor, aumentando a presso sobre uma economia que j est em desacelerao, diz o americano Patrick Chovanec, professor de negcios da Universidade Tsinghua, em Pequim. Nos ltimos meses, o governo iniciou uma tentativa de dar mais equilbrio ao mercado imobilirio, com medidas como a que impe restries  compra de mais de uma residncia pelos cidados. O objetivo  conter a especulao imobiliria e evitar que, numa eventual queda de preos, o setor se transforme num pesadelo mergulhado em dvidas como o espanhol. Muitas das dvidas dos bancos chineses esto relacionadas com o mercado imobilirio, e, em geral, as garantias desses emprstimos so terrenos e outras propriedades cujos preos esto supervalorizados. Se chegar o momento em que essas dvidas tiverem de ser pagas com as garantias, como ocorreu na Espanha, o castelo de cartas poder cair, afirma Chovanec. As cidades e os prdios fantasmas ainda podem vir a assombrar a China. 

A DECEPO DOS IMVEIS
O setor de construo civil  um dos principais pneumas do crescimento econmico chins, mas d sinais de esgotamento. Comparado ao mercado imobilirio de outros pases emergentes, o da China foi o nico que registrou queda no ltimo ano

Variao no preo das residncias (Primeiro trimestre de 2012 em relao ao mesmo perodo de 2011)
BRASIL 23,5%
ndia 12%
Turquia 8,7%
Rssia 8,2%
China -2,2%

H 64 milhes de casas e apartamentos vazios na China.

Fontes: Knight Frank e Commerzbank


8. BELEZA  50 TONS DE BRANCO
As lentes de contato para dentes so uma nova tcnica para embelezar e dar aparncia mais natural ao sorriso corrigido.
MARLIA LEONI

     Entrar no consultrio do dentista e sair de l com lentes de contato parece uma ideia estranha, mas na prtica j est acontecendo. As lentes so na verdade finssimas pelculas de cermica colocadas sobre os dentes. Como a maioria das novidades estticas, comearam a ser adotadas primeiro por quem depende da aparncia impecvel, em especial modelos e atores de TV que, por causa das novas imagens em alta definio, precisam corrigir a jato detalhes como manchas, irregularidades e diastemas  os dentes muito separados. Digo com segurana que todos os principais atores de novela que esto no ar hoje tm lentes ou pelo menos as tradicionais facetas, assegura o dentista paulistano Marcelo Kyrillos, que embelezou com as lentes dentaduras j espetaculares como a da atriz Gabriela Duarte e a da modelo Mariana Weickert. Tenho dez e acho timo. Elas so to finas que parecem um descascado de esmalte, diz a modelo. Nem me lembro delas, porque nada na minha vida precisou mudar: a escovao e a alimentao continuaram exatamente as mesmas, elogia Gabriela. Nem todos os artistas assumem que tm, reconhece Kyrillos. Existe um estigma de que tratamento esttico  s para quem no cuidou dos dentes e por isso eles estragaram.
     A inovao dessas pelculas  que elas tm apenas 0,2 milmetro de espessura. Por isso, ao contrrio do tratamento esttico convencional com facetas, de 0,5 milmetro, no exigem que os dentes sejam desgastados para que o encaixe fique perfeito. O preo varia de 1000 a 4500 reais por dente, o que se explica pelo trabalho minucioso. Primeiro, o dentista faz fotos e filmes do paciente para ver quais dentes aparecem durante a fala. As imagens so passadas a um prottico, que produz as pelculas. O toque de perfeio vem da habilidade tcnica desses profissionais. Os dentes naturais no so completamente homogneos na cor. So amarelados na raiz, brancos no meio e translcidos nas pontas. Para darmos aparncia natural s lentes, misturamos com pinceizinhos dez cores de p de cermica, entre cinquenta que temos em laboratrio. Essa mistura leva horas para ficar pronta e depois segue para um forno, cuja temperatura chega a 1000 graus, explica o prottico Marcos Celestrino, diretor cientfico da Associao dos Tcnicos em Prtese Dentria de So Paulo. H dois anos, eu fazia uma lente por ms. Hoje, fao vinte. Seis delas iluminam o sorriso da apresentadora Bruna Boyer. Meus dentes eram muito redondos e no combinavam com meu rosto, diz ela.
     Depois de prontas, as lentes so colocadas em apenas uma sesso. O dentista comea o processo passando um cido no dente e na lente, para que ambos fiquem porosos. Em seguida, aplica um tipo de cimento nas duas partes e, por fim, silano, um material formado por silcio e hidrognio, que cola o cimento  cermica. A colocao de facetas convencionais, aquelas que criam sorrisos perfeitos h mais tempo e fazem com que a Ilhus da novela Gabriela seja uma das maiores concentraes mundiais de dentes branqussimos sem um nico defeito,  mais trabalhosa. Para comear,  preciso desgastar uma quantidade grande do esmalte do dente: caso contrrio, a lmina cria um volume desconfortvel na boca. Na raspagem, existe o risco de atingir a dentina, a segunda camada dos dentes, com terminaes nervosas que podem causar dor. Por isso, o paciente  anestesiado.
     Seja com o tratamento mais disseminado das facetas, seja com a nova tcnica, os resultados estticos alcanados por dentistas brasileiros tm tima reputao. Nos Estados Unidos, elas so monocromticas, inteiramente brancas. Os americanos gostam da aparncia de azulejo, compara Kyrillos. A maravilha das lentes, porm, no  para todos. Quem range os dentes, morde ponta de caneta ou ri unha no pode usar, porque esses hbitos danificam a cermica, diz o dentista paulistano Mauro Teixeira, renomado especialista em reabilitao oral. Para estes e para quem tem resina aplicada na frente dos dentes, as facetas continuam a ser mais indicadas.


9. MEMRIA  TALENTO DEMOLIDOR
Nunca perco uma chance de fazer sexo ou aparecer na televiso.
Gore Vidal

     Morto na tera-feira 31, aos 86 anos, de pneumonia, Gore Vidal dizia ser o ltimo de uma linhagem de escritores que dominou a literatura americana na segunda metade do sculo XX. Os outros eram, em suas palavras, os inimigos ntimos Norman Mailer e Truman Capote. Alm de ter sobrevivido aos companheiros, Vidal foi o mais cido do trio. Durante a carreira, iniciada em 1946, ele escreveu romances, ensaios, peas, programas de TV e roteiros de cinema  suas colaboraes mais clebres foram no clssico Ben-Hur (no creditada) e no pornogrfico Calgula (creditada contra sua vontade) , alm de dois volumes de memrias.
     Depois dos sucessos da juventude, o romance A Cidade e o Pilar (1948) e os contos de Um Momento de Louros Verdes (1949), que exploravam a condio homossexual, Vidal se dedicou a suas maiores paixes: histria e poltica. Entre os anos 60 e 90 comps um imenso painel histrico dos Estados Unidos em seis romances (Washington D. C, Burr, 1876, Lincoln, Imprio e Hollywood). Produziu ainda duas vises muito particulares da Antiguidade clssica em Juliano (1964) e Criao (1981)  nesse ltimo, os personagens incluem Scrates, Confcio e Buda. Mas o talento para a stira feroz e demolidora da sociedade moderna, que se tornou sua marca, est presente em sua forma mais cristalina na farsa sexual Myra Breckinridge (1968), na comdia apocalptica Kalki (1978) e no pastelo surreal Duluth (1983).
     Filho do poder e do privilgio, Gore Vidal nasceu em 1925 na Academia Militar de West Point, no estado de Nova York. O av era senador e o pai, tenente do Exrcito. A me, a socialite Nina Gore, casou-se em segundas npcias com Hugh Auchincloss, padrasto da futura primeira-dama Jacqueline Kennedy  parentesco torto que Vidal adorava ostentar e que lhe permitiu estar no centro dos acontecimentos nos anos Kennedy na Casa Branca. Por duas vezes, em 1960 e 1982, tentou sem sucesso entrar para a poltica. Foi sempre um crtico corrosivo do governo, mas destinou seus ataques mais duros a dois presidentes republicanos, Richard Nixon e George W. Bush. Durante trs dcadas morou em Ravello, na Itlia, com seu companheiro, Howard Austen. Por razes de sade, voltou aos Estados Unidos em 2003 e se estabeleceu em Los Angeles  segundo ele, para presenciar o fim da civilizao americana.
MARIO MENDES


10. ESPECIAL  VINGANA  A EMOO PROMORDIAL
Com seu enredo de retaliaes desmedidas, Avenida Brasil faz o que s as grandes novelas do passado faziam: hipnotiza e, sobretudo, inquieta os espectadores de todo o pas.
MARCELO MARTHE

     Adriana Esteves e Dbora Falabella se preparavam para gravar a primeira cena da virada que se operou na novela Avenida Brasil nas duas ltimas semanas. Ao lado da diretora Amora Mautner, as intrpretes da vil Carminha e da cozinheira Nina debatiam que tom deveriam imprimir s suas respectivas personagens agora que comeava a se consumar o plano de vingana da mocinha. A atmosfera era de ansiedade  beira da piscina da manso do ex-jogador Tufo (Murilo Bencio), item mais vistoso da cidade cenogrfica que reproduz o fictcio subrbio do Divino na central de produo da Rede Globo no Rio Janeiro o Projac. De repente, uma abelha teimosa comeou a rodear Adriana, at pousar em seus cabelos. A atriz saiu correndo, aos berros. Carminha com medo de abelhinha? Fala srio, tripudiou a diretora. Nas semanas seguintes, porm, Carminha apresentou-se de fato como frgil e cheia de medo, muito diversa da mulher arrogante e estridente que os telespectadores conheciam.  Essa suavizao de um carter frreo de bruxa foi a obra da chantagem de sua rival.  Na teledramaturgia brasileira, nunca houve uma criatura to obcecada por vingana quanto Nina  alis, Rita. Para todos os efeitos herona de Avenida Brasil, a personagem revelou-se de uma monstruosa criatividade para bolar as mais diversas humilhaes  mulher que fizera sua infelicidade na infncia. Tratou-a por vaca e vadia, entre outros eptetos, fez com que ela lavasse roupa e esfregasse o cho e, suprema degradao, obrigou-a a comer o intragvel macarro com salsicha que Carminha adota como rao bsica para os empregados da casa. Nina/Rita parece confirmar uma daquelas geniais tiradas misginas do filsofo alemo Friedrich Nietzsche (1844-1900): Na vingana e no amor, a mulher  mais brbara que o homem. Fazer o personagem do bem cruzar de forma to ostensiva a linha que separa a equilibrada justia da mais brbara vingana foi uma das ousadias do autor Joo Emanuel Carneiro. O pblico aprovou essa novidade perversa: no captulo em que se concretizou a virada, exibido no dia 23 passado, Avenida Brasil alcanou 50 pontos no painel nacional do Ibope, o equivalente a mais de 46 milhes de espectadores sintonizados na novela  ou  marca impressionante de oito em cada dez lares que viam TV no horrio. A via-crcis de Carminha prosseguiu na semana passada, quando a novela atingiu seu recorde de audincia na principal praa do pas para o mercado de TV, a Grande So Paulo, com 46 pontos.
     Nos prximos dias, Nina chegar ainda mais baixo: far uma armao para que Carminha venha a flagr-la na cama com Max (Marcello Novaes), amante e parceiro de crimes da vil. De to perturbada, Carminha acabar internada numa casa de repouso. Quando ela no aguentar mais ser tripudiada pela outra, vai pedir para sair de casa, antecipa o noveleiro Joo Emanuel Carneiro. A m ndole da herona no  a nica inovao do autor: em Avenida Brasil, o subrbio deixou de ser mero cenrio lateral para impor-se pela primeira vez como o centro absoluto de um folhetim das 9  sem que, com isso, os espectadores sentissem que sua inteligncia foi subestimada, o que ocorre sempre que os autores se apoiam nos bares das Donas Juras e afins como chamarizes popularescos. O ritmo gil, a fotografia bem cuidada, os figurinos notavelmente precisos: tudo aponta para um rejuvenescimento providencial de um gnero que se acomodara no marasmo. Por fim, h os mritos da histria em si mesma. Valendo-se de um elenco de pouco mais de trinta personagens fixos, menos da metade do usual, Carneiro entrincheirou-se na principal atrao do horrio nobre munido de uma bala de ouro: um embate entre vil e herona baseado numa radical subverso de papis. Atravs da obsesso de Nina pela vingana, me interessa refletir sobre at que ponto vale a pena se corromper eticamente em nome de uma boa causa, afirma Carneiro.
     Se a inteno do noveleiro era provocar um curto-circuito na cabea da audincia, no h dvida de que seu esforo est sendo recompensado. O comportamento torto de Nina desperta sentimentos contraditrios. Ouo muitos elogios, mas tambm tomo lies de moral e xingamentos de velhinhas nas ruas, diz Dbora Falabella. Marcello Novaes, intrprete do notrio paumandado de Carminha, j colheu reaes piores: O pblico compreende as razes da vilania do Max e da Carminha, mas reclama que a Nina virou uma chata, que desiste at de seu grande amor porque est cega pela vingana. Logo depois da virada, a central de atendimento da Globo foi inundada por mensagens que elogiavam o destemor com que Nina passou a humilhar Carminha. Mas,  medida que o desatino da herona ia escalando e ela mimetizava at os trejeitos da antiga algoz, o desconforto se tornou evidente. Nas redes sociais (que vm fervilhando com a novela), eram as mulheres que mais se incomodavam com as atitudes da suposta herona. Para elas, Nina teria ultrapassado o limite do tolervel  em especial quando, profanando um atributo caro ao orgulho feminino, ela passou a tesoura no megahair da inimiga.
     Seria difcil para o espectador ficar indiferente ao comportamento ensandecido de Nina. Avenida Brasil explora um elemento perturbador, mas absolutamente incontornvel na vida em sociedade: o desejo de vingana. Revidar  altura um ato lesivo  um impulso comum a vrias espcies animais. Os psiclogos evolutivos aprenderam a pensar na vingana em termos quase matemticos, empregando instrumentos que vm da Teoria dos Jogos. No mundo duro da competio darwinista, a vingana  um modo de impor prejuzos quele competidor que antes disso imps prejuzos ao vingador.  um comportamento que faz sentido sobretudo para animais sociais, que no podem permitir que seus rivais os vejam como fracos. A vingana passa a mensagem inequvoca de que aquele indivduo no aceita que tentem tirar vantagens dele  e tende a ser mais intensa quando outros indivduos testemunharam a ofensa que a originou. No mundo (ou submundo) humano,  o que se v na ao de gangues urbanas, agiotas e mafiosos. O tubaro que mata quem lhe deve dinheiro no o faz apenas para recuperar o que perdeu: mata acima de tudo para deixar claro  clientela que atrasos nos pagamentos no sero admitidos. Uma experincia conduzida em 2004 pela Universidade de Zurique, na Sua, demonstrou que a vingana desencadeia um efeito concreto no organismo. Com o uso de exames de ressonncia magntica, constatou-se que a satisfao desse desejo ativa a rea do crtex relacionada  sensao de recompensa, alis uma das regies mais primitivas e ancestrais do crebro humano. A euforia sdica estampada no rosto de Nina a cada tortura perpetrada contra Carminha, quem diria, tem l sua razo biolgica: assim como ocorre quando se ingerem doces, se faz sexo ou se usam drogas, a vingana provocaria uma descarga de um hormnio ligado ao bem-estar, a dopamina.
     No convvio social, a funo da vingana  ainda mais eloquente. No se discute que a busca por reparao  um anseio legtimo. A vingana  a justia em estado bruto, resume o filsofo Denis Rosenfield, citando um conceito consagrado (a vingana  a justia selvagem, dizia o filsofo ingls Francis Bacon no sculo XVI). Desde que o mundo  mundo, a retaliao tem sido um regulador da conduta dos homens. No h estmulo maior  violncia do que a impunidade. Toda vez que temos de arquivar um inqurito por falta de provas, ou que um criminoso nem sequer  identificado, a impunidade triunfa. Isso frustra as pessoas e s estimula o crime, diz o promotor Francisco Cembranelli, que acumula casos de grande repercusso em seus 24 anos de atuao, a exemplo do assassinato da menina Isabella Nardoni, em 2008, que levou  condenao de sua madrasta e seu pai. Os dilemas de uma autoridade investida do poder de acusador pblico, contudo, ilustram o equilbrio necessrio para purgar a potencial selvageria. Compreendo a ansiedade do pblico de querer que a maldade seja vingada sem demora. Mas quem lida com casos que provocam tanto clamor tem de se apegar  lei e  anlise fria dos fatos, afirma Cembranelli.
     Tanto quanto a inexistncia da retribuio, afinal, os excessos cometidos em nome dela exacerbam a barbrie. A mais antiga tentativa conhecida de equacionar a questo  a lei de talio. Descrita no chamado Cdigo de Hamurabi, embrionria pea de direito oriunda da Babilnia e datada do ano 1780 a.C., a regra que preconiza o famoso olho por olho, dente por dente choca os cidados de hoje por sua crueza. Mas, ao estabelecer que o revide deveria ser proporcional  agresso, a lei de talio representou um avano civilizatrio. O surgimento da Justia propriamente dita atendeu  necessidade de transferir a execuo dos atos de vingana das mos das vtimas para a esfera pblica  evitando, assim, que a retaliao ficasse sujeita a critrios pessoais mesquinhos. O vingador individual com facilidade recai naquela falha que os gregos chamavam de hbris: o momento da desmedida, em que os excessos at daquele que busca justia se convertem em uma nova (e talvez ainda mais profunda) injustia. Todos os heris da tragdia clssica grega, sejam ou no vingadores, tm seu momento de hbris  e nenhum encarna to bem a falta de medida do vingador quanto Medea, que mata os prprios filhos para vingar a traio do ex-marido Jaso (veja outros clssicos da literatura de vingana na pgina 154).
     Em uma novela que  como a anterior, Fina Estampa  dramatiza dificuldades e dilemas da ascenso social, era inevitvel que a vingana embutisse elementos classistas. A retaliao de Nina contra Carminha no se esgota na expiao de seus traumas de infncia: significa tambm a desforra das domsticas reprimidas contra as patroas abusivas. E que os moradores do Leblon durmam com outra causa barulhenta abraada por Avenida Brasil: a vingana do subrbio contra as dcadas de monoplio da Zona Sul carioca como cenrio das tramas contemporneas da Globo. A parte abastada da cidade agora sobrevive apenas no fiapo mais tbio da novela: o ncleo das trs dondocas que se digladiam pelo cafajeste vivido por Alexandre Borges. Para conferir verdade aos encontros na casa do encantador novo-rico Tufo, a diretora Amora Mautner  inquieta filha do maluco tropicalista Jorge Mautner  recorre ao que batizou de cama de sujeira: os dilogos so poludos com frases criadas de improviso pelos atores na hora da gravao. No subrbio, as pessoas no conversam de modo comportado: falam umas por cima das outras.  uma acstica muito doida, diz a diretora, responsvel tambm pela identidade visual desta que  a primeira novela das 9 gravada com padro de fotografia de cinema. O ncleo Tufo tem inegvel apelo cmico, mas seus personagens no so esteretipos humorsticos. A gente imprime humanidade a essas caricaturas. Muito da personagem eu extrai de uma tia minha, diz Letcia Isnard, que interpreta Ivana, a irm mal-amada de Tufo. A nota que destoa do alto-astral reinante  Jorginho, heri hesitante e melanclico vivido por Cau Reymond. O Jorginho  atormentado, coitado. Um sujeito chato para caramba, reconhece o ator.
     A novela incorre em um atrevimento indito no campo da cenografia: o lixo. A Globo preocupava-se com a ideia de levar  casa das pessoas, e bem na hora do jantar, um ambiente sujo, srdido e habitado por um canalha como Nilo, vivido por Jos de Abreu. Havia um medo de botar no ar aquele sujeito fedido e, ainda por cima, explorador de criancinhas, diz Abreu, que est em um dos melhores desempenhos de sua carreira. Contra todas as expectativas, as crianas adoram sua estampa de vovozinho maluco. A barba e o cabelo ensebado, porm, causam contratempos domsticos ao ator. Na cama, de noite, minha mulher ainda toma um susto sempre que encosta em mim, diz ele. O lixo da novela  to impactante que se tornou destino concorrido dos tours de visitantes do Projac. Ao longo de dois meses, mais de 1500 caminhes de entulho foram despejados no local, com o cuidado de no misturar resduos orgnicos. Os moradores da rea at se assustaram, imaginando que seria um depsito de lixo de verdade. Conseguimos fazer um lixo limpinho, diz Jos Luiz Villamarim, diretor da maioria das cenas ambientadas ali. Quem visita o lugar experimenta uma estranha dissonncia sensorial: no lugar do fedor de chorume, sente-se o cheiro de po que vem de uma fbrica nas proximidades.
     Da parte do autor, talvez a grande sacada de Avenida Brasil seja o resgate  com o devido banho de modernidade  de expedientes engenhosos dos velhos folhetins. A virada de Nina no meio da trama, consumada no captulo 103 de 179 previstos at outubro, retoma uma ttica consagrada pela rainha do gnero nos anos 70 e 80, Janete Clair. Para gravar as cenas secretas da fase da vingana, a Globo montou uma operao de guerra no Projac. Com o fim de evitar que seu teor vazasse para a imprensa, s os atores que participam de cada uma delas e uns poucos tcnicos privilegiados ganham as pulseirinhas coloridas que do acesso ao estdio  mediante ainda a assinatura de um protocolo de sigilo. Os atores que gravavam as sequncias hilrias da famlia de Tufo na praia, em Cabo Frio, no tinham a mnima ideia dos babados que envolviam Nina e Carminha. No fomos convidados para essa festa vip, diz Eliane Giardini, a ruidosa Muricy.
     A vingana, em Avenida Brasil,  assunto de mulheres. A atuao de Mel Maia, a garotinha que fez o papel de Nina (ou Rita) na infncia, definiu o tom dramtico da novela. Num futuro folhetim das 6, a atriz de 8 anos ter realce de protagonista, na pele de uma espcie de Pequena Buda. No set, ela s deu certo trabalho para chorar  problema que foi resolvido com alguma dose de coero psicolgica. Minha ttica para fazer a Melzinha abrir o berreiro foi dizer que ela nunca seria to boa quanto outra atriz infantil de quem ela  f, revela Amora Maumer. A personagem forte, porm,  Carminha, papel em que brilha Adriana Esteves. A imagem de boa moa fez dela a escolha perfeita para uma vil dissimulada, diz o diretor de ncleo Ricardo Waddington (surpreendentemente, porm, no foi ela a primeira opo para o papel). Nascida ela prpria no subrbio do Mier, na Zona Norte do Rio, Adriana  conhecida pela capacidade de entrega, em sentido quase esprita,  personagem. Nas cenas em que estapeou Max, Adriana desceu o sarrafo  de verdade. Eu ficava todo vermelho, conta Marcello Novaes. Na constelao das estrelas da Globo, Adriana nem ganha o salrio de quem se imps h pouco tempo como protagonista, como a colega Dbora Falabella (80.000 reais mensais), nem est no plpito ocupado por uma prata da casa absoluta como Gloria Pires (250.000 reais). Fica num belo meio-termo, na casa de 150.000 reais.
     Depois de fazer Carminha sofrer, a mocinha interpretada por Dbora no vai escapar de um inevitvel processo de expiao. Pouco a pouco, o plano de vingana vai degringolar  e a vil vai virar o jogo a seu favor. Joo Emanuel Carneiro adianta que Nina ir para a cadeia sob a acusao de ter tramado o falso sequestro de Carminha ocorrido tempos atrs (do que ela  inocente) e roubado o dinheiro do resgate (o que ela de fato fez). Mais adiante, algum vai ser assassinado. Todos sero suspeitos, inclusive a Nina, conta o autor (sabe-se que a vtima ser Max). Ao que tudo indica, a obsesso vingativa de Nina est afetando outro lado da vida profissional da atriz. Ao contrrio do usual para heronas de novelas da Globo, ela no tem faturado com campanhas publicitrias. Isso deve ter a ver, sim, com a personalidade da Nina, afirma Dbora. Avenida Brasil mostra que quem se agarra  vingana de forma assim to doentia corre o risco de comer um prato gelado. De macarro com salsicha, quem sabe.

UMA COMPULSO CLSSICA
A vingana tal como foi representada em alguns clssicos da literatura

DESTRUIO TOTAL
A mitologia grega contempla vrias histrias de vingana  mas nenhuma  to devastadora quanto a lenda de Medeia, cuja verso consagrada se encontra na tragdia de Eurpides (480 a.C-406 a.C). Abandonada pelo heri Jaso, que decide se casar com a filha do rei de Corinto, Medeia (na foto, encarnada por Maria Callas, em filme de Pasolini) toma uma medida extrema: mata os filhos que tivera com o marido traidor. Essa me monstruosa  a expresso mais brutal da fora cega da vingana.

RETALIAO FILOSFICA
No teatro ingls da virada do sculo XVI para o XVII, constituiu-se um gnero chamado tragdia de vingana, no qual todos os eventos convergiam para o final  sangrento  em que o personagem injustiado cobrava sua reparao. H referncias, em um texto do perodo, a uma pea, de autor desconhecido, sobre o prncipe dinamarqus Hamlet. William Shakespeare (1564-1616) tomou o mesmo entrecho dessa pea perdida para criar sua obra-prima. Hamlet (aqui vivido por Laurence Olivier) deseja vingar-se do tio, que matou seu pai e usurpou o trono. Mas seu acerto de contas  csmico: em seus monlogos, Hamlet parece buscar um acerto de contas no s com o tio, mas com a existncia. E, sim: o final  sangrento.

UM MODELO CLSSICO
O Conde de Monte Cristo, do francs Alexandre Dumas (1802-1870), o jovem marinheiro Edmond Dants (na foto, Robert Donat, em filme de 1934) cai vtima de uma conspirao e  preso, sob falsa acusao, na mais tenebrosa das prises. Depois de uma fuga espetacular, ele encontra um providencial tesouro e, disfarado como o conde do ttulo, urde sua trama de vingana contra aqueles que o traram. A injustia a um inocente e o retorno do injustiado sob uma nova identidade foram elementos absorvidos por Joo Emanuel Carneiro, admirador do folhetim de Dumas, em Avenida Brasil.

DESPROPORO CRUEL
Suportei o melhor que pude as injrias de Fortunato; mas, quando ousou insultar-me, jurei vingana, diz o nobre italiano Montresor no conto O Barril de Amontillado (aqui em adaptao dirigida por Roger Corman), do americano Edgar Allan Poe (1809-1849). Poe depurou a vingana at chegar a seu esqueleto. Existe uma ofensa, e s isso basta para o ofendido responder de forma cruel: Fortunato  emparedado vivo. Assim  a mecnica das retaliaes: a vingana acaba sendo sempre desproporcional ao ato vingado.

MOMENTOS DA VIRADA
Em Avenida Brasil, Joo Emanuel Carneiro retomou uma prtica de Janete Clair: reservar o clmax da trama para o meio da novela. A maioria dos folhetins que mobilizaram a ateno do pas deixou o pice dramtico para o final.

Selva de Pedra 1972
Janete Clair instituiu a virada no s no fim, mas no meio da novela, com a exploso do Fusca em que viajava Simone (Regina Duarte, acima), quase na metade da trama. A personagem seria dada como morta e voltaria, passando-se por outra. O momento em que ela  desmascarada, cerca de cinquenta captulos depois, foi outro ponto em que a novela eletrizou o pas.
Extenso da novela (em captulos): 243
Quando aconteceu o clmax: captulo 103

O Astro 1977/78
Quem matou Salomo Hayala? era a pergunta que mais se ouvia no Brasil ao tempo desse folhetim de Janete Clair. O personagem interpretado por Dionsio Azevedo ( esq.) fora assassinado j no captulo 43. Mas o clmax de O Astro se deu quando a polcia apresenta Felipe (Edwin Luisi,  dir) como o assassino, a trs captulos do final.
Extenso da novela (em captulos): 186
Quando aconteceu o clmax: captulo 183

Vale Tudo 1988
A novela de Gilberto Braga teve vrias viradas e pontos tensos  como o momento em que Raquel (Regina Duarte) rasga o vestido de noiva da filha, Maria de Ftima (Gloria Pires), no captulo 80. Mas o auge veio no final, quando Leila (Cssia Kiss) confessa ter matado Odete Roitman (Beatriz Segall, acima).
Extenso da novela (em captulos): 204
Quando aconteceu o clmax: ltimo captulo 

Senhora do Destino 2004/05
A trama de Aguinaldo Silva inspirou-se no caso real de Pedrinho, que, roubado da maternidade em 1986, s reencontrou sua famlia em 2002. O momento culminante deu-se logo aps a metade da novela, quando Isabel (Carolina Dieckmann,  esq.) descobre que  a filha desaparecida de Maria do Carmo (Susana Vieira,  dir.)
Extenso da novela (em captulos): 220
Quando aconteceu o clmax: captulo 135

Avenida Brasil 2012
Jogada no lixo pela madrasta Carminha (Adriana Esteves,  dir.), Rita (Dbora Falabella,  esq.) orquestrou sua vingana lentamente. O captulo 103, quando ela afinal pe sua revanche em ao, foi o pico de audincia at ento, com 50 pontos no ibope nacional.
Extenso da novela (em captulos): 179
Quando aconteceu o clmax: captulo 103

TODOS TEMOS UM POUCO DE CARMINHA
Aos 42 anos, a atriz Adriana Esteves caiu na boca do povo como a vil barraqueira de Avenida Brasil. Nesta entrevista, ela fala sobre a difcil arte de ser me e vil  e sobre vingana

Carminha  a maior personagem de sua carreira? 
Ai, lindo, procuro no comparar. No sei se  porque sou muito intensa, mas todos os trabalhos acabam sendo arrebatadores.  uma entrega total. Inclusive, pago um preo emocional alto por isso. Mas a Carminha realmente est tomando conta deste ano da minha vida.

Como  a criao de uma vil? 
 um artesanato enorme. Quando o Joo Emanuel Carneiro me convidou para o papel, ele disse: Voc est preparada para mexer com coisas que talvez no sejam fceis de lidar dentro de voc?. Eu falei: Estou. Preciso ter verdade em tudo que fao. At se a personagem tiver de fazer falsidade, tem de ser verdadeiramente falsa.

Que tipo de vil  Carminha? 
 uma personagem muito rica porque no  s vil: ela  uma mulher, uma pessoa, uma sobrevivente. Ela poderia ser qualquer um. Todos ns temos um pouco de Carminha. Eu j esbarrei em muitas Carminhas na vida, algumas bem prximas do meu convvio.

Ser Carminha d trabalho? 
Total. Daqui a pouco, vou me jogar em mais uma batalhona de umas dez horas de gravao. Quase no vejo os amigos. Tenho de evitar minha cervejinha e meu vinho, que eu amo demais. E durmo pouco. As vezes, tenho pesadelos com umas coisinhas de perseguio, com vilanias. Acho que  influncia da Carminha.

Adriana Esteves  barraqueira e estridente como Carminha? 
Nada a ver. Sou bem mais discreta. Falo to baixo que as pessoas tm de ficar de ouvido coladinho.

Qual a reao de seus filhos ao ver a me como uma vil que maltrata criancinhas? 
A Agnes e o Felipe, que j so adolescentes, veem a novela numa boa. Mas no deixo de jeito nenhum que o Vicente, de 5 anos, me veja no ar. Ele no iria entender.

Carminha merece a vingana de Nina? 
Acho que ela j vem sendo punida. No  possvel que essa moa seja feliz. Uma pessoa que aprontou tudo aquilo no consegue dormir em paz. A melhor vingana  deix-la carregar esse peso pela vida inteira.

